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ONDE SURGIU A MOULAGE?



Esses dias postei aqui no blog uma visita que fiz no museu do Yves Saint Laurent em Paris, onde tinha várias telas de moulage expostas em uma espécie de painel.


Durante esses quase 20 anos estudando e trabalhando com moda, sempre gostei da parte histórica e por isso minha paixão pelos museus e exposições de moda.


Infelizmente não temos acesso as grandes exposições aqui no Brasil, elas ficam restritas somente aos grandes museus de moda, porém ao longo dos anos tive a oportunidade de visitar e conhecer muitos deles.


E em uma dessas exposições pude ver o "nascimento" da moulage dentro da Alta Costura.


A técnica, ou melhor, o ato de enrolar o tecido sobre o manequim é algo muito antigo, pois ao vermos imagens e esculturas antigas podemos ver que Gregos e Romanos enrolavam os tecidos ao redor do corpo, o que pode ser chamado de moulage, embora não houvesse técnica.


A moulage como conhecemos hoje e que eu chamo de moulage francesa, onde há regras específicas, surgiu em meados da década de 1920 com Madeleine Vionnet e Madame Grès.


Madeleine Vionnet e Madame Grès foram estilistas influentes e importantes na história da moulage e da Alta Costura.

Ambas ajudaram a disseminar a técnica e até hoje são citadas e referenciadas quando o assunto é modelagem tridimensional ou ainda, modelar roupas sobre o corpo ou sobre o manequim. Por isso a importância de conhecer mais o trabalho e a trajetória de cada uma delas.


Madeleine Vionnet - A arquiteta da Alta Costura


Madeleine Vionnet nasceu na França, em 1876 e apesar de ter sido muito aclamada durante a vida e reconhecida por colecionadores e historiadores de moda como uma das grandes estilistas, seu nome não é muito familiar.


Tive a oportunidade de visitar uma exposição especial com todos os seus trabalhos em 2009, no Museu de Artes Decorativas, em Paris.


Madeleine possuía um inigualável conhecimento técnico sobre tecidos e modelagem. Considerada a inventora do corte enviesado, na década de 1920 (antes, o viés era tradicionalmente usado para circundar e unir o decote), Vionnet trabalhava com peças inteiras de tecido e complicadas costuras para tirar todo o volume de um vestido, fazendo com que tivesse um caimento belo perfeito.


Provavelmente foi o amor pela geometria que permitiu a Madeleine Vionnet desenvolver os cortes refinados a partir de formas básicas como quadrados e triângulos, além disso analisava as esculturas gregas antigas e produziu vestidos fluidos com gola drapeada e amarrações cruzadas na diagonal.


Vionnet estudou como um médico o corpo feminino, de forma a conservar sua beleza. Tal como um cirurgião, estudou uma forma de colocar costuras para que o vestido seguisse a silhueta do corpo. Foi um pensamento revolucionário, já que na época era o corpo que tinha que se ajustar ao vestido e a moda do momento.


Madeleine Vionnet não fazia croquis e trabalhava com o tecido em um boneco-modelo de 60 cm, aumentando proporcionalmente o material para adequar o feitio ao tamanho natural do corpo.


Além da modelagem diretamente sobre o corpo, o segundo ingrediente de sucesso no trabalho de Vionnet era seu conhecimento sobre tecidos.


Apenas os tecidos mais maleáveis podiam acompanhar os movimentos do corpo e ela utilizava exclusivamente a musselina, cetim e veludo.


Sobre as roupas criadas por ela, Issey Miyake, outro célebre estilista, conhecido como o rei do plissado, disse que elas "se baseiam nas dinâmicas do movimento e nunca se desviam dessa ideologia indispensável". Muitos estilistas contemporâneos renomados, citam o trabalho de Vionnet e utilizam seus vestidos como estudos: Azzedine Alaïa, também importante por fazer modelagens complexas e que valorizam o corpo feminino, conta que precisou de meses para compreender os mistérios do corte de Vionnet.


Ela preferia tecidos de uma só cor porque acreditava que as estampas desviavam o olhar da forma e da modelagem - a essência de uma roupa na sua opinião.


Como adornos das peças, escolhia os bordados ou rosas e nós estilizados, e estes elementos também desempenhavam um papel importante na roupa, além da função decorativa: sustentavam o tecido em pontos estratégicos para que as costuras fossem desnecessárias. Além disso, tinha o cuidado de fazer com que os adornos não tornassem os vestidos pesados, os bordados tinham que seguir a direção dos fios!


Além de toda a contribuição para a forma de construção de uma roupa, Vionnet é aclamada por grandes costureiros como Dior, Alaïa, Miyake e Yamamoto e ainda afirmam: A arte da Alta Costura nunca alcançou um nível tão elevado.


Madame Grès - A escultora do Tecido


"Madame Grès", cujo nome era Germaine Émilie Krebs, nasceu em 1903 e foi uma uma das grandes estilistas do século XX. Seu sonho era ser escultora, porém não obteve apoio da família.


Com seu uso magistral do drapeado e do corte, ela é tida por muitos estilistas como uma escultora do tecido.


Grès supostamente aprendeu o ofício no ateliê parisiense de Alta Costura Prémet, em 1930, antes de trabalhar para a estilista Julie Barton.


Com o casamento, em 1937, ela se tornou Madame Grès e, em 1942, abriu um ateliê na Rue de la Paix.


Trabalhando sozinha, Grès drapeava, cortava e alinhavava os tecidos escolhidos com cuidado diretamente no manequim, pois acreditava que o material a guiaria.


Os seus vestidos eram quase sempre brancos com drapeados e lembravam as túnicas gregas e eram apresentados sem qualquer tipo de elemento decorativo


Seus projetos são complexos, magistrais, elegantes e finalizados à mão. Uma modelagem sempre surpreendente que encanta até os dias de hoje.


E então, gostou de conhecer a história da moulage? Aproveite os outros conteúdos que preparei aqui no blog e também no meu canal do YouTube.



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